De uma vida para outra – Parte 1

Eu não faço ideia do tempo em que eu sinto isso. Talvez já tenha nascido assim, sei lá, não consigo pensar muito a respeito sem me sentir uma completa maluca que ninguém entende. Prefiro imaginar um mundo irreal no qual sou um ser humano normal e sem problemas. Mas isso, na verdade, é uma contradição, né? Todo ser humano tem problemas. Mas, o fato é, nem todo ser humano tem os meus problemas. É, eu fui abençoada com o toc e o transtorno de ansiedade, mas disso a gente fala depois, pode ser?

Hoje é dia 4 de dezembro e eu estou de férias, o que seria incrível se eu realmente tivesse o que fazer. São dias e dias deitada na cama, olhando pro teto, ouvindo música.

Não, eu não sou essa pessoa totalmente isolada e inútil. Tenho duas amigas, as melhores que poderia ter, mas as duas estão viajando. A Vitória, que foi para Londres visitar a avó, e  a Camila, que está em alguma cidadezinha do interior que, agora, eu esqueci o nome.

Então tudo o que me resta é isso: contar os buraquinhos da parede centenas de vezes durante todas as vinte e quatro horas  do dia.

Além disso, eu passo a maior parte do tempo pensando em alguém que nem conheço. Tem sido assim desde que me entendo por gente.

Todos os dias a mesma coisa. Eu fecho meus olhos e me apaixono por alguém que talvez nem exista. Eu fecho meus olhos e sonho com ele, o mesmo homem de sempre. Com seus olhos verdes hipnotizantes, seus cabelos pretos e compridos e sua barba grande, quase criando uma atmosfera de mistério e perigo. O sorriso calmo e tranquilizador. Ele me olha e vai embora, em todos os sonhos.

Acordo frustrada todos os dias.

Será que ele existe no mundo lá fora ou só aqui dentro? Bem, eu não sei, mas espero que sim. Sinto que sim.

– Tina, para de fazer corpo mole e vem cá ajuda a mamãe no jantar.- gritou, percebi pela voz, meu irmão, aquele idiota.

– Tá, já vou. – e desci correndo as escadas antes que o Gabriel voltasse a gritar nos meus ouvidos.

Cozinhar é uma das coisas que eu mais gosto de fazer, me acalma, me distrai e, por alguns minutos, me faz esquecer das centenas de rituais que ainda tenho que fazer para me sentir livre.

– Filha, quando é que suas amigas voltam? Já ta na hora de sair um pouco e se comportar como uma menina de 18 anos, né?

– Nossa, mãe, de que mundo você veio? – dei uma risada – A vitória volta semana que vem e a Camila chega amanhã.

O jantar ficou pronto e fomos comer na sala para assistir TV, ia começar alguma série nova ou algo do tipo.

– Que série louca é essa que tá todo mundo querendo ver?

– é a história da Roberta Maia, uma atriz super famosa dos anos 50, eu e seu pai adorávamos. – respondeu minha mãe de uma forma tão empolgada que até assustou.

– Shiu, shiu, vai começar. – meu pai pegou o controle e aumentou o volume da TV.

Continua.

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