Textos e resenhas literárias

O seu sorriso é lindo, moça

Leia ouvindo A change is gonna come, de Aretha Franklin

Moça, tudo bem?

Talvez você não me conheça, mas fica tranquila, não sou nenhuma espécie de pessoa maluca que observa desconhecidos. É que não tem como não olhar quando você passa com esse sorriso.

Sabe aquela cafeteria de esquina, perto do parque com flores amarelas? Foi lá que te vi pela primeira vez. Costumo ir sempre às tardes de quarta-feira beber um Moca morno e tentar escrever algumas laudas do meu livro. Não, o livro ainda não existe, e nem sei se um dia irá.

A questão é que lá estava eu digitando – ou tentando – no meu notebook velho e eis que você entra pela porta de vidro que faz barulho de sino quando alguém abre. Casaco marrom, um vestido que parecia azul e aquele sorriso.

Derrubei um pouco do meu café já frio na mesa, não sei porque. Não costumo muito ser desastrado. Mas é que você entrou e parece que junto veio uma tempestade. Você tomou o espaço inteiro como uma tempestade silenciosa, que está ali, mas não causa danos. Limpei a sujeira que fiz com um guardanapo e voltei para meus afazeres.

Na quarta-feira seguinte coloquei uma calça menos velha, uma blusa não tão amassada e fui de encontro ao meu local. Sim, a cafeteria era meu local. Talvez porque a minha casa cheire muito a mofo e eu não goste de ambientes cheios como bibliotecas, escolhi a Cafés & Aromas como meu lugar especial para trabalhar. Trabalhar? Ninguém da minha família jamais me considerou um trabalhador. Para eles, trabalho significa terno e gravata. E eu odeio.

Respirei fundo, abri o notebook e pensei: e agora? O processo criativo é engraçado porque ele não vem quando a gente quer, vem quando estamos distraídos demais para pensar que precisamos urgente escrever alguma coisa similar a um livro para tentar pagar o aluguel atrasado. E nada da inspiração aparecer…

Mas você surgiu. Eu não tinha percebido, mas você estava lá, o tempo todo, no balcão. Sentada, lendo alguma coisa no celular, com um vestido diferente, mas o mesmo casaco. Dessa vez não vi seu sorriso. Pensei, o que houve? Tive vontade de ir até você e perguntar, mas que mundo é esse que eu acho que vivo onde estranhos se preocupam com outros estranhos? Fiquei paralisado.

Você saiu cedo de lá. Ficou meia hora e se foi. Aquela sensação de tempestade quando você passa, ela não aconteceu. Sua presença, naquele momento, me fez lembrar um barco solto no meio de um lago em algum lugar onde só mora um senhor e seu cachorro velho. Você parecia como o barco, ou o lago. Triste.

Depois desse dia não te vi mais. Por quase um mês corri para chegar na Cafés & Aromas pontualmente – como se eu por acaso trabalhasse em algum escritório de advocacia pontual e rígido – vestindo a melhor roupa que podia ter em minha cômoda e segurando meu velho amigo notebook. Engraçado que transformei você em um objetivo. Não você, mas a necessidade de te esperar, de te ver entrando por aquela porta que faz barulho, tomando todo o ambiente, trazendo aquele sorriso. E por me distrair com você, finalmente a criatividade bateu na minha janela e entrou. E durante aquele período eu escrevi meu livro.

Eu gostaria muito que um dia eu pudesse ter o prazer de te encontrar de novo e dessa vez ir conversar com você. Costumo pensar que, após aquele dia, você saiu da cafeteria e encontrou uma amiga na rua, que te convidou para uma festa no sábado. Fico imaginando você usando o mesmo casaco, um vestido amarelo e seu melhor sorriso. Chegando na festa e trazendo luz. E nessa festa, encontrando o amor da sua vida. Porque aquele seu olhar de barco perdido no lago, eu conheço bem. É o único olhar possível dos amantes inveterados de coração partido.

Se um dia eu puder mesmo te conhecer, vou dizer oi moça, tudo bom? Obrigado por ter me dado a oportunidade de estar em sua presença na Cafés & Aromas. Você pode não saber – e acho que não tem como mesmo – mas esse livro só existe porque você existiu em algum dos meus dias de tédio e falta de confiança. Você me fez criar um universo de possibilidades sobre sua vida e isso me trouxe de volta a minha. Toma, esse livro é sobre você. E me promete uma coisa, por favor: nunca deixe de sorrir. Seu sorriso é lindo.

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4 Comentários
  1. Suélen Emerick Diz

    Raquel, que texto delicioso. Amei os detalhes! O barulho de sino da porta, o moca, o dia, as roupas, o horário. Suas descrições são muuuuito gostosas e torna a leitura leve. Dá aquele “ah, já acabou?” no final. Sua incrível. Parabéns!

    1. Raquel De Póvoas Diz

      Ai Suuuu, vc sempre maravilhosa né? Obrigada minha flor por ler, por compartilhar tanto carinho! <3

  2. Mar Maya Diz

    Consegui ver as cenas, os detalhes….vc me levou numa viagem, amei! Obrigada por este momento fantástico que foi ler suas palavras…foi muito real! Parabéns! Bjo
    Aaah! LI com a música, perfeito!

    1. Raquel de Póvoas Diz

      Muito obrigada mãe! Amo vc! 💜

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