Ela estava bebendo. Luzes coloridas piscavam loucamente e músicas tocavam tão alto que doíam seus ouvidos, mas ela não se importava. Parou de se importar com as coisas há algum tempo. Tirou essa noite para esvaziar a cabeça e esquecer de tudo e de todos. Dos seus pais que sempre pegavam no seu pé, mesmo sendo maior de idade, seu chefe, os estudos, o namorado… espera um pouco… que namorado?
Foi nessa hora que ela se permitiu rir alto, até porque ninguém naquele lugar ligava para a presença dela. Pessoas dançavam, cantavam e se beijavam por todos os lados. Quem era ela? Apenas uma garota, nem tão bonita assim, tomando algumas doses de whisky.

Pensou em suas amigas, a essa hora provavelmente estariam com seus namorados dormindo, juntinhos e colados, com a televisão ligada bem no meio de um filme clichê. Pensou se um dia também ficaria assim, tão apaixonada a ponto de esquecer de si própria e dividir o brigadeiro de panela com alguém. Ela encheu novamente o seu copo. Tinha que parar com isso. Ilusões e amizades coloridas para ela já chega. Um homem pra vida inteira…. A ideia parecia absurdamente… ahm… confusa. Ela riu novamente. Por que se pegava pensando constantemente em sua vida amorosa? espera… Que vida amorosa?!?
Ela começou a se irritar com seus próprios pensamentos, que infelizmente eram apenas os fatos subindo a sua cabeça. Tomou mais um gole.
Alguém, interrompe seus pensamentos, senta ao seu lado e diz:
” Que tal pedirmos mais uma bebida?”
Ela olha pra ele, um homem atraente e com uma voz sedutora tinha acabado de sussurrar em seu ouvido. Com um sorriso no lábios ela olhou para a garrafa em sua frente  agora vazia e disse:
“Nem percebi que tinha acabado…”
O cara, riu com a distração da jovem e, ligeiramente interessado na vida da moça a sua frente, disse:
“Problemas com algum cara?”
“Se eu tivesse algum cara para ter problemas , a ponto de beber uma garrafa de whisky sozinha… Mas não tenho. Então, não.”
Disse ela um tanto quanto sarcástica , com um sorriso irônico nos lábios avermelhados. Ele então disse:
“Aceita mais uma bebida?”
“Claro, enquanto meu fígado existir…. Pode pedir mais uma.”
Ele então pediu uma água e encheu o copo de jovem que,distraída , pensou que era mais uma dose de  whisky. Tomou o primeiro gole e disse:
“Isso é água?!!”
Ele com um sorriso respondeu:
“Sim, água.”
Ela sem entender perguntou , “Não queria uma bebida?”,
“Sim, mas não quero que a moça fique sem um fígado tão cedo…” ,
disse ele sorrindo. Ela, indiferente, continuou tomando sua água, ainda preferindo mais uma dose de whisky, e internamente se perguntando o por quê de um cara tão atraente sentar ao seu lado para oferecer um copo d’ água.

E ela sem jeito perguntou:
“Bem… Como estou sem criatividade te devolvo a pergunta. Problemas com alguma garota?”
“Nossa… Quanta criatividade!” Disse rindo um pouco. “Mais ou menos isso sim.”
“Ahm… Foi um pé na bunda? sem querer ser indiscreta…”
Ele riu minimamente e disse: ” Não…Antes tivesse sido um pé na bunda.”
Mesmo sobre o efeito de álcool ela percebeu que mesmo ele se esforçando a rir, ainda continha as lágrimas.
“Desculpa…. Não quer mais falar sobre isso? podemos mudar de assunto.”
“Não… tudo bem. Mas, não é o melhor assunto nesse momento.” Ele desviou o olhar por alguns segundos, e ela sentiu que devolver aquela pergunta foi um erro… E tomou mais um gole de sua água.
” Desculpa, eu falo coisas inconvenientes às vezes, mas… Você que quis sentar do meu lado então, não me culpe.”
” Bem, você é espontânea e honesta… São dois pontos bons… ahm… eu acho.” Disse ele meio duvidoso mas, com um sorriso nos lábios.
“Acha?” riu ela.
“Acho.” Disse ele concordando.“Posso te fazer uma pergunta?”
“Claro, manda aí!”. E pediu mais uma dose de whisky ao barman.
“Como você consegue beber tanto e não ficar alterada?”
“Eu estou alterada.” Falou bebendo um grande gole de seu copo.
“Não parece.” Ele falou rindo.
“Sério?! Aquilo ali é um unicórnio?” Disse ela surpresa e um tanto alucinada, mas impressionada com que via.
Ele se segurava pra não morrer de rir na frente dela… Mas, não aguentou quando o cara que estava com a cabeça de unicórnio “zoando” na festa esbarrou nela e, assustada, deu um salto da cadeira impressionada e chocada ao mesmo tempo. Ele começou a gargalhar e disse:
“Acho que chega de whisky por hoje , pra você.” Disse em meio aos risos, tirando o copo da mão dela que ainda estava chocada demais para reagir.” Vamos, eu te levo pra sua casa.” Segurou sua mão e a puxou até a saída da boate. Ela, porém, disse:
Não precisa, eu tô de carona…” Disse tonta e embolada em suas palavras.
“Você veio sozinha.”
“Como você sabe?”
“Eu te vi chegando na boate andando, a mais ou menos um quarteirão daqui, quando eu passava com o meu carro.” Disse ele destravando o carro e abrindo a porta para ela.
“Que cavalheiro, vai beijar a minha mão também?” disse ela lhe oferecendo a sua mão. Ele olhou para os seus olhos, segurou sua mão e ao invés de beijar a mão dela, inverteu-as e beijou a sua própria. Ela fingiu estar ofendida, e ele deu risada, assim como ela, que também se juntou a ele.
“Entra logo.”
Ela entra no carro e ele fecha a porta, dá a volta pelo carro, abre a porta, senta e dá a partida.

” Você pelo menos lembra onde fica a sua casa?”
“Lembro…que pergunta idiota.Fica a duas quadras daqui.”

Ele percebendo que ela estava sem seu casaco, pegou o seu que estava no banco de trás, deu a ela e ligou o ar quente do carro.
“Obrigada” disse ela. Ele apenas sorriu em resposta.

A blusa dele tinha um perfume muito bom, e era bem quente.
O caminho foi silencioso e ela acabou dormindo, depois de ter falado seu endereço. Estava exausta.

Chegando na casa dela , ele pegou as chaves que estavam em sua bolsa , abriu a porta da frente e voltou ao carro. Pegou-a no colo, carinhosamente, e a levou até o seu quarto, deitando com cuidado e arrumando seu travesseiro, depois cobriu e tirou seus sapatos. Ela acordou ligeiramente e disse: “Obrigada.” E voltou a dormir rapidamente. Ele pegou um papel escreveu um recado e voltou para sua casa.
No dia seguinte, ela se lembrava , com muito esforço do moço que havia conversado noite passada. E ao lado do seu travesseiro tinha um pequeno pedaço de papel escrito: ” Cuide mais do seu fígado.”, e a garrafa de água da noite anterior. Ela sorriu e pensou. “Eu nem ao menos perguntei o nome dele.” Mas, sempre se lembraria do cara que lhe ofereceu água ao invés de mais uma dose de whisky.

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3 COMENTÁRIOS

  1. Vou deixar expresso aqui o meu desejo por uma continuação. Faço até protesto, se for preciso.

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