Textos e resenhas literárias

O que faz você feliz?

 “Perguntam se você formou, se casou, se já teve filhos, mas ninguém pergunta se você é feliz”. Acabei de ver essa frase no stories do Instagram. Foi tipo boom, uns segundos e passou. Não deu tempo nem de refletir. Sequer reparei quem postou. A próxima foto já era uma daquele estilo “blogueirinha” com produtos pra pele. Logo depois veio um boomerang que envolvia comida, então eu larguei tudo e fui assaltar a geladeira. Queria entender as pessoas que conseguem parar de comer pra gravar ou tirar foto, eu sempre devoro tudo antes.

Agora estou aqui, deitada pra dormir, mas confesso que essa é a última coisa que penso em fazer. Aquela tal frase de autor desconhecido (que apareceu diante meus olhos como anúncio da Jequiti no meio da minha “programação normal”) está grudada na mente tipo chiclé, ops, clichê. Ai,ai…  os clichês quase sempre são reais, né? Droga!

O que faz você feliz? Sim, eu sei que esse é outro clichê disfarçado de jingle de supermercado. Se você leu esse trechinho cantando, isso significa que a estratégia de marketing deles deu certo. Aliás, se dependesse de mim, provavelmente os publicitários estariam sempre com um sorriso de orelha a orelha. Eu sou o tipo de consumidora trouxa, que fica com consciência pesada até de ignorar um anúncio no youtube. Evito entrar em lojas com vendedores, porque acabo saindo delas com pelo menos duas “brusinhas” novas com estampas divertidas que não cabiam no orçamento – e às vezes nem em mim cabiam direito.

Mas enfim, voltando a tal frase de efeito (que realmente fez um efeito e tanto em mim). Cara, ser feliz envolve tanta coisa, é tão pessoal, tão subjetivo. Por que as pessoas forçam a gente a enumerar as coisas? Parece que pegaram o nosso direito de felicidade e colocaram em uma listinha. Risca um item, coloca outro e segue o baile. Eu nunca fui boa com listas de nenhuma espécie. Nem com as de supermercado, muito menos com essa listinha aí – que tá mais pra um pseudo interrogatório existencial. Claramente isso é como pegar algo de Humanas e tentar transformar a todo custo em Exatas. Não dá certo!

Na minha cabeça, a felicidade não pode ter pré-requisitos. Ser feliz pra você pode ser diferente do que é ser feliz pra mim, por exemplo. E tá tudo bem se a gente discordar. Afinal, somos donos dos nossos sonhos, e só nós sabemos aonde queremos chegar (ok, às vezes nós não fazemos a mínima ideia, mas ainda assim é problema nosso).  A verdade é que ninguém tá muito preocupado em respeitar isso, talvez  seja por falta de tempo mesmo. Estão todos muito ocupados em completar sua listinha, ou seja, ter estabilidade financeira e emocional antes dos trinta.

Bem, se felicidade é isso, então que nome eu dou praquilo que sinto quando me pagam um açaí? Como eu chamo aquela sensação gostosa de ganhar presente fora de data? E aquele passeio de mãos dadas pelo parque? A pizza de calabresa compartilhada com os amigos na sexta à noite? A mensagem de bom dia, o sorriso do padeiro, o cafuné no cachorro fofo da vizinha, superar um medo bobo, entrar de férias, conhecer gente nova, café fresco coado por vó, abraço de mãe, viajar pra uma cidade fria a dois, um abraço demorado de reencontro, achar dois reais no bolso da calça no fim de mês. A felicidade tem tantas formas que seria injusto demais criar uma fórmula pra ela.

Vejam bem, não estou dizendo que para ser feliz é necessário ser totalmente despreocupado do futuro, desleixado com as obrigações que a sociedade impõe, tá? Não tô falando pra você largar o emprego, a faculdade e ir vender artesanato na praia (apesar de parecer uma excelente ideia haha). Só quero dizer que não devemos ser reféns dessa convenção social que nos dita o que, como e quando fazer. Não podemos condicionar nossos sonhos, ou até esquece-los.  Eu penso que muita gente nem se permite sonhar mais, nem sabe o que é isso, não tem outra motivação além do “nasce, cresce,forma,  casa, compra apartamento, reproduz e morre”.

A felicidade vem naturalmente pra quem enxerga a beleza dos clichês. Pra quem vê poesia na pequenez do cotidiano. Pra quem divide sobremesa, pra quem comemora quando consegue pagar os boletos em dia e ainda sobra um pouquinho pra pegar um cinema em família. É sorte de quem se entrega, sabe? Que vive mesmo, de forma literal. Gente que quebra a cara, mas no final do dia ainda consegue ver o pôr do sol e agradecer. Aliás, se o sol nasce para todos, por que há tanta desigualdade no mundo? Taí, uma frase de efeito que acabei criando sem querer. Talvez eu poste essa no stories mais tarde com um bichinho bonitinho. Talvez não. É, parece que nos tempos de hoje, trocamos as emoções por emojis.

Já são quase três da manhã e eu preciso acordar às 6h pra trabalhar num emprego que eu não curto tanto. Mas aquela frase? Ah, ela ainda vai ficar na minha cabeça por um bom tempo. Talvez seja melhor que as pessoas não perguntem mesmo se eu sou feliz. Provavelmente não saberia responder. Provavelmente essa resposta nem exista.

E se você ainda não casou, não teve filhos, ainda não tem um diploma e tá bem longe de achar o tal amor da sua vida, respira, relaxa. É isso que você quer realmente viver? Ou foi o que te disseram que deveria fazer? Não se cobre tanto e não deixem que façam isso por ti. Tenha sempre um plano b, um plano c, ou plano nenhum. Só viva, experimente, sorria sem temer as rugas, reveja suas próprias metas e pegue as rédeas da sua felicidade. Concordo que ela tem mais sentido quando compartilhada, mas saiba com quem dividir. Afinal, a felicidade não é uma roupa cara que a gente divide no cartão de crédito. Não é um status. Não é sua classe social. A felicidade não é um monte de coisas, e pode ser o que você quiser que seja. Taí!  Pra mim a felicidade tem mais a ver com decisão. É acordar num dia comum e decidir que ele vai ser especial apesar do ônibus lotado, do coração meio remendado, das dívidas e das dúvidas. Então, decida ser feliz, vai?

 

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