Textos e resenhas literárias

Clichês de gaveta

Leia ao som de Amor I Love You, Marisa Monte

Ei, menino. Hoje eu tomei coragem junto com meu café de padaria -pra não engolir a seco e engasgar. Já tem algumas semanas que adio fazer isso. Você conhece como poucos a minha mania de procrastinação, né? Sim, eu sei o quanto te irritava essa minha mania de “sorrisos primeiro, obrigação depois”. Sempre achei uma besteira isso de comer a sobremesa só depois do almoço. Mas hoje eu tomei coragem, e confesso, até eu me surpreendi.

O dia amanheceu comum. Eu desci pra tomar café na padaria embaixo do meu bloco porque esqueci de fazer as compras, pra variar. Você que fazia isso, lembra? Eu até podia ir junto, mas ficávamos horas só na prateleira de biscoito. Hoje, quando vou ao mercado, tento ir direto para a sessão de legumes ou detergentes de prato. Tento ir desviando da sessão de biscoitos. Ela é meio que sagrada e não tem a menor graça passar por lá sem você. É doído abrir o pote de café e ver que ele está vazio. Aí que me dou conta que você se foi mesmo.

Por aqui tá tudo igual, já sei de cor a rotina da tia do balcão e do cara de terno que suja a gravata toda vez que toma pingado. Será que encontrei alguém mais desastrado que você? Acho que isso é impossível.

O dia amanheceu como outro qualquer, mas eu nao. Eu, com toda coragem engasgada na garganta, resolvi mexer na nossa gaveta de clichês. Aliás nem sei se ainda posso chamar de “nossa”. Se o criado mudo falasse, ele teria boas historias sobre nós pra contar pras paredes e elas rachariam de rir.

Desde que você se foi, eu já superei coisas extraordinárias, mas os nossos clichês sempre foram tao bonitos, que guardei a sete chaves. Por que você tinha que ter esses detalhes tão inesquecíveis, hein?

Abri a gavetinha com certo cuidado, e aquele ruído de gaveta velha dela tentou me fazer desistir. Mas eu fui até o final. Entre um boletos e recibos (meu Deus, você guardava todos mesmo!) eu achei o bilhete para aquele show de uma banda que a gente nem conhecia e que foi péssimo mas foi ótimo ao mesmo tempo. Depois desse dia decidimos ir apenas a apresentações de cantores conhecidos. A gente decidiu tanta coisa. Mas nem fizemos todas.

Depois que você se foi, comecei a ouvir mais as playlists que fazem lembrar você. Eu sei, sou mesmo um pouco maluca por fazer isso, mas a verdade é que tenho medo. Medo de apagar você da memória, medo de levantar qualquer dia da cama e me sentir livre da saudade que sinto. Medo de desocupar essa gaveta dos detalhes que são só nossos. É essa saudade que me faz ainda estar contigo. Não tem como negar, uma noite de sábado em casa com você, sempre será o meu clichê preferido.

Eu acho engraçado como valorizamos os começos, mas não sabemos como lidar com os finais. Eu que sempre achei que nossa história daria um livro, me pego tentando entender porque apenas um parágrafo ou dois. Porque você não está mais aqui me convidado para shows, para tomar um café forte no meio da tarde ou brigando comigo porque sempre dormia no meio dos filmes de ação. Queria saber se você ainda passa na sessão de biscoitos ou desvia, como eu. Se você ainda me ama. Se ainda sou um clichê bonito pra você.

Texto escrito em dupla pelas colunistas Raquel de Póvoas e Suélen Emerick

Comments Closed

Comentários estão fechados.