Sobre as ondas, já salvo, inda medroso

Olha o mar perigoso em que lutava,

O meu ânimo assim, que treme ansioso,

Volveu-se a remirar vencido o espaço

Que o homem vivo jamais passou ditoso.

— A Divina Comédia.

Espero que me perdoe…

Enquanto ouvia seu rastejar pelo quarto, mesmo sem conseguir vê-lo, eu sabia que não irias embora.

Não sairias dali.

E mesmo me congelando, o pavor me aquecia. E eu me acostumei.

E eu te dei a voz que não te pertencia e o poder de me tirar aqui que era pra ser meu.

Mas preso ao seu fantasma, a familiaridade na qual eu temia, até aqui sempre me perseguiu.

Destruindo corações iguais ao meu.

Medo.

Mas era mesmo o medo de te encarar e enfrentar o lobo que ruge na noite e a cobra venenosa que me paralisa?

Morte.

Quem sou eu? Ou melhor, quem uma vez eu fui?

Pois estou morto e não consigo desenterrar-me deste lamaçal.

O clima está sempre frio.

E este pesadelo nunca acaba.

Talvez eu não queira acordar. Por um fim às coisas, por vezes, dá trabalho.

Requer um esforço sobrenatural que eu nunca acreditei em ter.

E recomeçar do zero.

Mas eu preciso. Como num último adeus, ou numa carta para um funeral de um familiar querido.

Toda a bagunça que uma vez foi feita durante um furacão, precisa ser arrumada, e seus habitantes precisam reformar suas casas, ou mudarem-se dali. Encontrar um novo lar. Desta vez mais firme, porém não impedirá de outra tempestade tomar conta do lugar e devastar. Mas será diferente, tenha em mente.

E se não morrermos nesta, poderemos recomeçar outra vez.

Há sempre mais uma chance de recomeçar.

Por isso, deixo o frio deste quarto, abro as cortinas aos poucos, e deixo a luz entrar.

Faz tempo que não sinto o calor de algo orgânico em meus ossos e pele.

O ar fúnebre vai se dissipando e percebo que todas as assombrações que criei, na verdade eram míseros objetos que em minha mente tentavam-me assustar.

Como uma criança indefesa, mas agora que sabe toda a verdade. E uma vez enxergando a verdade não há como retornar à escuridão.

Estou deixando ir todos os monstros que criei de mim, que criei de você, que fiz assustarem todos que uma vez tentaram me ajudar.

E aqui estou eu, pronto pra tentar, mas desta vez, sem medo.

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