Em sua composição “Anoiteceu”, juntamente com Francis Hime, nosso querido poeta termina sua obra dizendo uma simples, mas intrigante , frase:  “Quem ama não tem paz”.

Pois é, aposto que surgiu em sua mente e no seu coração um milhão de recordações e sentimentos para tentar entender se essa frase tem verdade ou não.

A gente acaba tendo vários tipos de relacionamentos na vida, amores mais calmos, tranquilos e outros nem um pouco, que ficariam melhor classificados, às vezes, como “desamores”.  Alguns, eu diria, que são “entorpecedores”, “estremecedores”; tão intensos que tiram nosso chão num piscar de olhos, nos deixando tão aturdidos que a gente mal sabe em que momento foi o tiro.

Talvez, por experiência própria, eu tenha me encantado mais com os amores que me viraram do avesso. Não tive muito amor sereno, mas me sentia tão viva, parecia sempre um furacão de emoções, que deixava o quarto, a casa e meu coração todo bagunçado. Me acostumei com amores que me tiravam a calma (confesso que já não tenho muita), e que gritavam no meu peito mais alto do que eu mesma podia ouvir. Por isso, pode ser, que a frase de Vinicius faça bastante sentido pra mim.

Em outra de suas composições, chamada “Consolação”, Vinicius escreveu: ” Se não tivesse o amor, se não tivesse essa dor, e se não tivesse o sofrer, e se não tivesse o chorar, melhor era tudo se acabar.”

Mas a verdade é que, ninguém quer sofrer por amor; esse é um medo enorme e intrínseco dentro de nós. Só que, por outro lado, ninguém também quer viver em um marasmo sem fim, viver sem se arriscar é tedioso demais. Pelo menos ninguém deveria querer, porque esconder seu coração só vai te privar de viver toda e qualquer emoção.

A gente quebra a cara mesmo, é inevitável, vive muita história que acaba deixando cicatrizes que podem doer, quem sabe, por uma vida inteira. Mas a gente também vive muita coisa boa no meio disso tudo, e encontra muito amor que nos ensina a ser bem melhor.

Em contrapartida, Vinicius escreveu “O amor em paz”, onde ele diz ter encontrado a tão almejada paz em sua amada, ou seja, causando um dilema no meio de tantos de seus poemas, e também na nossa cabeça. Bem, e se nem nosso ilustre poeta consegue se decidir, se o bendito amor da ou não da paz, quem dirá nós?

Acredito que amar vai muito além de ter paz; é uma mistura de todos os sentimentos possíveis. A gente pode ter paz ao lado da pessoa que ama, como naquela noite chuvosa e fria, enquanto esquentamos as mãos um no outro, embaixo dos cobertores, e pegamos no sono com barulho de chuva caindo na janela. Mas, no dia seguinte, a gente também pode perder nossa paz facilmente, quando não recebe notícias ou quando cultiva muitas expectativas; quando espera o dia todo por uma ligação e sente toda aquela clássica frustração.

Pode ser que amar seja viver no ínterim, na intersecção, entre ter e não ter paz.  É um amontoado de cicatrizes cobertas com band-aids coloridos, justamente cheio de cores, pra lembrar que, acima das dores,  nós também tivemos bem vividos e aventurados amores.

Acho que o que importa mesmo é nos permitir amar, nos abrir, aprender, crescer, chorar e rir. Quando a gente ama a gente perde e ganha o chão, a paz, todo dia. A gente deixa de lado esse grande medo de sofrer e se permite viver; a gente segue o coração, sem se preocupar com os males e os dissabores que isso pode nos trazer, no meio de toda essa confusão.

Então, que assim seja, meu caro Vinicius. Que amar me tire a paz, me dê paz, de qualquer maneira; mas, principalmente, que me permita sentir viva, enquanto amo com todas as minhas forças, sem nenhuma barreira.

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Advogada com alma de bailarina; uma sonhadora inconstante, meio cômica e distraída. Se perde em meio a tantos pensamentos esparsos, por isso tenta traduzir em palavras toda bagunça do seu coração incansável; na esperança de guiar e entender a loucura cotidiana de seus passos. Dona da página e do insta @escritascomcafe.

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