Camelô. Você era um quando te conheci. Um camelô que vendia amores, cartões e poesias. Eu me encantei instantaneamente, pois como romântica que sou, não posso ver qualquer ato sentimental que já encho meu peito de vigor para falar o quanto o amor é importante na vida. Sendo assim, me solidarizei e comprei uma poesia sua, me apaixonando pelo seu trabalho ainda mais. Seu jeito também começou a me enfeitiçar. E toda vez que eu passava para ir ao trabalho, sempre acenava para você com um sorriso bobo estupidamente estampado na cara.

Um dia, saí mais cedo do trabalho e resolvi passar pela sua banca. E fui, quando me deparei com você chorando, olhos azuis já quase vermelhos. Era falsidade sua, mas completamente burra, acreditei. Solícita como sempre, ousei até passar minhas mãos em seu ombro. E nisso você já despertou seu radar engana-trouxas. Você recusou meus conselhos e eu entendi, indo embora preocupada. Noutro dia, tudo foi diferente. Dei bom dia para você, ganhando um beijo na bochecha, que de rosada pelo meu pó, ficou mais rosada ainda, cor de chiclete. Dias e mais dias se passaram, com o nosso afeto crescendo. Quero dizer, meu afeto crescendo, pois o seu certamente era mentiroso.

Seu radar apitou incessantemente, acredito, pois não demorou muito para que nós nos tornássemos ficantes. Suas demonstrações de carinho te fizeram me ganhar, ganhar meu sentimento mais puro. Só Deus sabe o tamanho arrependimento que sinto por ter te colocado no meu apartamento, mesmo que você tivesse levado várias malas, menos escova de dentes, tendo que usar a minha. E eu deixei, pois você me manipulou direitinho, como se eu fosse uma boneca havaiana, que está sempre balançando a cabeça em concordância.

Eu necessitava de amor, prazer e você me deu, tudo numa noite só, aos montes e mais montes. E eu… fiquei inteiramente hipnotizada, não percebendo a sua real intenção. Dormimos embolados sob o mesmo calor, mesma intensidade, mesmo fogo. Você se aproveitou e roubou meu coração. Quando acordei, já estava sem ele. Meu peito parecia ter sido rasgado por unhas de tigresa. Suas unhas, seu maldito ladrão. Fui na delegacia mais próxima e te denunciei, descobrindo depois a existência de outras vítimas. Hoje, rodo por toda a cidade, atrás de você, atrás da sua banca, atrás de algum cartaz anunciando a venda do meu coração, pois creio que seja isso que você está fazendo por aí: vendendo-o. Me devolva, por favor. É só o que te peço, nada mais. De qualquer forma, desejo que você seja preso, porque talvez os outros presos roubem o seu também. E isso me confortaria.

 

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