O dia que ele se foi

Leia ao som de Never Gonna Be Alone – Nickelback

 

(Imagem: Pinterest)

Já passava das duas da manhã, ouvi o som do telefone estridente tocar, o tateei em cima do criado mudo e sem ainda abrir os olhos pude ouvir a frase que desmoronaria meu mundo: “Gustavo sofreu um acidente e não resistiu”. Como assim não resistiu? Ainda sem acreditar no que ouvi, respirei fundo, e mas rápido que minha respiração, foram as lágrimas caindo.

Há quatro anos estava junto de Gustavo, faltavam três meses para que noivássemos, e um para que ele se formasse na faculdade pelo curso de Engenharia Ambiental. Ele sempre foi mais ligado às causas ambientais que eu. A verdade é que enquanto ele voltava da faculdade havia muita chuva na estrada, na tentativa de amenizar a situação e diminuir a velocidade, ele freou o carro deslizou e caiu numa das caídas – dessas de apoio, sabe? – da rodovia.

Durante o cortejo, todos incrédulos sobre como um rapaz jovem cheio de vida e sonhos, poderia ter partido de maneira tão cruel. Os olhos já estavam exaustos de tanto jorrar água, talvez, não houvesse mais o que chorar. Senti desfalecer junto aos nossos sonhos. Chegamos ao cemitério, e eu observava tudo atentamente, sem ainda entender o que havia se tornado a minha vida nas últimas 24h. A lápide escrita: “aqui descansa o herói, humanitário e sorridente Gustavo Cali” e a rosa vermelha semelhante à que me deu quando começamos a namorar, foram as últimas imagens, que precederam as palmas, seguido de terra e um silêncio doloroso.

Durante dias, recebi mensagens dizendo “Patrícia, você está bem?”, mas sequer me dei o trabalho de responder, não era a hora.  Depois de quinze dias em casa, decidi sair de casa e ir até o parque. Natureza me lembrava o espírito aventureiro e protetor de Gustavo. Me sentei num banco desses que ficam debaixo de uma enorme árvore, pássaros cantando, o raio de sol iluminando e esquentando minha mórbida existência. Mais uma vez, respirei fundo, e senti o ar preencher cada espaço de meus pulmões. O coração sentiu-se aliviado, aliviado porque naquela noite que Gustavo partiu, havia dito o quanto o amava e o quanto ansiava por ele. Ele se foi, e eu fiquei. Ele se foi, levou metade do nosso amor e a outra metade ficou comigo. Ainda nos amamos, porém em planos diferentes. 

Me pergunto quantas pessoas se amam e não tem a coragem de dizer, me atormenta a ideia de que alguém que amo possa partir sem que eu o diga quanto. Não importa o que aconteceu, pegue seu celular nesse momento, diga o quanto ama seus pais, amigos, namorados, irmãos, familiares… Se puder fazer isso pessoalmente, melhor ainda! Só ama quem tem alma, porque a nossa essência é amar. A vida é frágil demais, neste instante estamos aqui, mas basta uma fração de segundo para nos resumir à lembranças. Ame, ame hoje, porque o amanhã é incerto. 

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