Textos e resenhas literárias

Adeus sem aviso prévio

Você não me avisou que iria doer. Não tinha isso escrito naquele bilhete fofo que você me entregou no nosso primeiro aniversário de namoro. Não tava dito no teu olhar de promessas doces e nem naquele teu sorriso fácil de menino- que com certeza foi o que mais arrebatou meu coração logo de cara. Foi questão de segundos e eu estava entregue feito boba, planejando até a lista de compras do supermercado. Ps: Nela também não estava escrito que iria doer.

Eu nunca fui de reclamar das dores cotidianas, você sabe bem disso. Sempre engoli um dorflex antes mesmo de dizer pra meio mundo o quanto a cabeça doía. As dores que eu não podia tratar tão facilmente com um comprimido sem prescrição, eu aprendia a conviver. Fica mais fácil quando você sabe que ela vai chegar. Minha cólica, por exemplo, tinha data marcada. Então eu aprendi a não sofrer tanto com ela – isso depois de muitas doses de buscopan e compressas de água quente, claro.  Eu sabia exatamente quando ia doer, e não que isso fizesse a dor sumir completamente, mas eu estava preparada, sabe? E sempre soube que reclamar não adiantava muito.
Não, eu não sou melhor que ninguém. É claro que quando bato o dedo mindinho na quina da mesa eu grito como todo mundo. E acho que foi mais ou menos o que meu coração fez quado você o partiu de maneira brusca: gritou. Gritou alto. Xingou palavrões até então desconhecidos do meu vocabulário. Sua partida desavisada doeu. Mas não doeu tipo injeção que você fecha o olho ou olha pro outro lado. Doeu como cortar o dedo com caco de vidro. Talvez se eu já tivesse levado uma facada diria que doeu como uma.
Talvez você nunca leia essa carta, mas eu vou passar ainda muito tempo lendo e relendo todas as que você deixou. É difícil acreditar que tudo aquilo não foi real. Que eram meras palavras. Palavras lindas, bem colocadas, leves, mas não sinceras. Você foi muito bom nisso de fazer acreditar. Incrivelmente profissional.
Agora, eu que quero que você acredite como nunca no amor que eu senti. Tenho certeza que algum momento da vida você vai pensar em tudo que deixou pra trás. Não, não é um desejo de vingança pra que o remorso te corroa. Na verdade, eu espero de todo meu coração que um dia eu te perdoe, e que esse dia se apresse em chegar e acalentar minha dor. Mas eu sei que inevitavelmente você vai pensar um dia o quanto teria sido bonito se tivesse sido real. Se o futuro que você prometeu tivesse se realizado. Se a gente tivesse mesmo os nossos cinco filhos (dois nossos e três adotados), se a gente tivesse comprado nossa casinha com varanda e adotado vários cachorros. Se a gente tivesse casado ao ar livre e depois feito um mochilão pela América do Sul.
Seria muito bom se não tivesse tido fim. Mas teve e foi aqui. Decidi que seria exatamente agora com o desfecho dessas linhas. Aqui deixo o adeus que eu queria nunca ter de dizer. Sabe aquele refrão sertanejo raiz “Não aprendi dizer adeuuuus..”? Pois é, a verdade é que não aprendemos porque nunca nos ensinaram. Nos ensinam tanta coisa, até fórmula de Bhaskara que não usamos pra nada, mas dar adeus? Nunca uma aulinha sequer! 
Aliás, eu nem imaginei que daria adeus. Sempre me pareceu uma palavra tao forte. É um “Felizes para sempre” só que ao contrário. Me pego aqui mais uma vez adiando…
Talvez se eu soletrar pra mim mesa, seja mais fácil:
A – D – E – U – S.

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3 Comentários
  1. Quel Póvoas Diz

    “Aliás, eu nem imaginei que daria adeus. Sempre me pareceu uma palavra tao forte. É um “Felizes para sempre” só que ao contrário.” QUE TEXTO!!!!

    1. Suelen Diz

      Ain muito obrigada por ler, gêmea. REAL 💙

  2. Taihana Diz

    Parabéns!!! Vc descreveu com perfeição a dor de uma ausência inesperada…
    A gente passa um tempo se perguntando onde errou, o que aconteceu e, pior ainda, se culpando tb.
    Mas, só temos o eco como resposta e ponto! Então acho que é isso msm… Parar de se perguntar, de se culpar e A-D-E-U-S!!! ( Assim em letras garrafais )

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