Textos e resenhas literárias

Um conto de uma garota presa no trânsito durante o natal

Dia 24 de dezembro. Meu relógio de pulso apitou – como de costume – avisando que já eram dez horas da noite. Eu estava em um ônibus velho, fedorento e com ar condicionado estragado, presa no trânsito de véspera de Natal que liga a metrópole com a cidade vizinha. No meio de tantas luzes e barulhos de buzinas, eu ouvia a voz da minha mãe bem ao fundo da minha mente dizendo: “eu te avisei, Alice. Você deveria ter comprado a passagem antes! Só vai encontrar passagem para a véspera de Natal ou talvez nem consiga voltar para casa.” É, a minha mãe estava certa. Ela sempre está.

Acabei me enrolando nas provas finais da faculdade, esqueci de comprar a passagem com antecedência e agora estou presa aqui, neste ônibus esquisito e lotado que a companhia colocou para circular só para suprir a grande quantidade de viagens de final de ano, mas esqueceram completamente que essa espelunca precisa de uma revisão UR-GEN-TE. Para me deixar mais estressada, a minha cadeira é a do corredor. Eu detesto poltronas que não sejam na janelinha. Aí eu não consigo ouvir minha playlist especial para me imaginar num clip de música, estilo Selena Gomez, enquanto o vento bate no meu rosto.

O trânsito parou de fluir há uns 30 minutos atrás. O motorista acabou de desistir e desligou o motor. Pelo visto, vamos passar a noite aqui mesmo, no meio dessa estrada. Provavelmente vamos fazer um amigo oculto dentro do busão.  O relógio logo marcará meia noite e eu ainda estarei sentada do lado desse moço que não para de roncar. Ele parece ser bonitinho, mas está com a touca do moletom cobrindo a cabeça, não consigo enxergar direito no escuro e eu esqueci minhas lentes de contato em casa.

Meu celular toca. É a minha mãe. Lá vem bronca.

– Alice, minha filha! Cadê você, garota? – ela quase berra e o moço do meu lado se movimenta. Será que ele ouviu?

– Ei mãe! Beleza? – tento despistar o meu desespero – Então, eu tô meio que presa. No trânsito. Tá uma bagunça louca aqui na estrada. Mas acho que logo logo eu tô em casa, não preocupa, viu?

– Como assim, presa? Você não tá chegando? Alice do céu! Esse ônibus deveria ter chegado aqui nove da noite.

Antes de ter tempo para responder, a ligação cai. O celular sai de área e eu não consigo mais falar com a minha mãe. Pronto. Agora ela enlouquece de vez! A minha ansiedade começa a surgir. Eu começo a suar frio, as pontas dos meus dedos formigam e eu tento, inutilmente, fazer o exercício de respiração que a psicóloga ensinou. “Cheirar a flor e soprar a vela. Cheirar a flor e soprar a vela. Cheirar a flor e soprar a vela.” Merda, não tá passando. Meu coração acelera, bate tão alto que eu tenho medo de conseguir ouvi-lo. “Calma, Alice. Calma. Vai ficar tudo bem”, repito para mim mesma numa tentativa de me tranquilizar.  Acho que minha respiração está mais alta do que deveria, pois o tal moço do meu lado acorda assustado, tirando o capuz da cabeça. Troco um olhar tímido, meio que pedindo desculpa pela minha crise. Ele não desvia os olhos de mim e eu já começo a pensar que talvez ele possa ser um maníaco. “Calma, Alice. Calma. Vai ficar tudo bem”

– Ei! Tá tudo bem? Você tá passando mal? Caramba, você tá suando muito! – ele diz assustado e se afasta.

– É. Só. Uma. Crise. De. Ansiedade. – eu digo, respirando entre cada palavra que troco com esse estranho que começa a mexer na sua mochila loucamente à procura de algo. Continuo com a minha respiração ritmada e profunda quando ele aparece com uma garrafinha de água extremamente gelada. Eu nem sabia que ainda existiam garrafinhas boas por aí. Ele ergue a garrafa, quase enfiando entre as minhas mãos, que estavam cravadas na minha perna. Eu tomo a água, pensando que poderia estar envenenada com algo para me fazer dormir. “Alice, você é maluca, não beba isso!”, é o que minha mente diz, mas continuo bebendo mesmo assim.

A água gelada passando pela minha garganta seca ajudou. Consigo voltar ao ritmo normal de respiração, minha mente se acalma e aquieta. Não estou mais suando em bicas, mas acho que ganhei duas pizzas de baixo dos braços. Maravilha. O moço bonito do lado salvou a garota das pizzas. Olho para ele sem graça e devolvo a garrafinha, ele sorri como quem diz “não foi nada”. O relógio no meu pulso apita de novo dessa vez avisando que já é natal.

– Feliz natal, moça. À propósito, sou Gabriel, prazer! – o estranho diz ao meu lado enquanto estende a mão na minha diração, esboçando um sorriso que revela todos os dentes perfeitos dele. A covinha salta nas bochechas e uma mecha do cabelo cai sobre os olhos. É, ele é bonito. Não. Bonito é pouco. Ele é maravilhoso!Já que estamos no mesmo barco, eu retribuo sua felicitação e sorrio, timidamente. Sabe-se lá o que esse natal me reserva…

 

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2 Comentários
  1. Suelen Diz

    Tem continuação? Diz que sim. Socorro!!!!

  2. Daniele Denez Diz

    Maaari, quero continuação tbmmm!! Amei demais esse conto <3

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