Textos e resenhas literárias

Você já escolheu ser feliz hoje?

 

Imagem: Pinterest

Leia ao som de Felicidade –  Marcelo Jeneci

 

Ela prendeu o cabelo em um coque, vestiu um jeans surrado, pegou uns trocados que davam para pagar ônibus e talvez um lanche, nesses fast foods da vida. Trancou a porta, e não fez questão de levar chave.  E era assim que ela lidava com histórias de amor recém-acabadas. Histórias de  amor deveriam ter um fim digno de contos de fadas, não é mesmo? Talvez. Mas por aqui vivemos a vida real, sem ´´era uma vez´´ ou ´´foram felizes para sempre´´.

Nem sempre a vida a proporcionou o que ela queria, e isso não era muito diferente em seus relacionamentos. Parou no ponto de ônibus, relembrou cada momento, uma lágrima escorreu em seu rosto e com ela também os sonhos. Em que momento havia desistido da felicidade? E por que raios insistia em histórias que já deveriam ter tido fim há um bom tempo? Para espantar seus próprios devaneios, logo o ônibus apontava na esquina, levantou-se rapidamente e o adentrou.

Por alguns segundos pensou em ligar e dizer que sentia muito, estava errada e que logo estariam juntos novamente. Porém, sentiu que aquele era o real momento de se permitir conhecer novos horizontes e se dedicar plenamente a pessoa mais importante de seu mundo: ela mesma. Abriu o aplicativo de mensagens, rapidamente escreveu: ´´esse é realmente o nosso fim. Deixe minhas coisas na portaria e pego na segunda. Te cuida´´. Em seguida, sentiu o corpo pesar e aos poucos foi se afundando no banco, checou algumas ligações perdidas, mas não tinha tempo de retorna-las, ao menos não naquele momento, tinha que dobrar duas ruas até chegar seu local de trabalho.

Cumprimentou o porteiro e algumas pessoas que estavam no corredor com um breve ´´bom dia´´,apertou o botão 5, indicando seu andar. O elevador abriu-se. Hora de trabalhar, por oito horas seguidas Marina checou e-mails, falou com clientes e fechou novos contratos. Entretanto, no fim do expediente, sentiu aquele mesmo pensamento da manhã, em que momento havia desistido da felicidade? Tudo bem, precisamos de emprego para nos manter e pagar os boletos no final do mês, vida de adulto, não é mesmo?  Entretanto, ela já estava na agência há cinco anos, e havia prometido a si mesma logo em seu primeiro dia de trabalho que aquilo não duraria mais que o necessário.

Porém, este necessário estava perdurando por tempo demais. Sentia-se estagnada na vida. Aquele escritório cinza, repleto de pessoas arrogantes pesava demais em sua existência. Num ato de coragem e apoio a sua saúde mental, sentiu que naquele dia precisava pôr fim naquele capitulo também. Em uma conversa calma, mas não menos conflituosa  informou ao seu chefe que já não desejava mais ali trabalhar, saiu de lá com a promessa de que algum dia voltaria caso sentisse vontade. 

Ouviu o relógio da matriz dar sete badaladas indicando que já eram sete da noite, e cada uma delas ecoava dentro de Marina. Ao sair do prédio, decidiu ficar alguns minutos ali na praça e observar. Viu um garoto de rua se aproximar, pedir esmolas com a boca e com os olhos implorava por uns minutos de atenção, fez um acordo dizendo que lhe pagaria um lanche.Enquanto olhava o rapazinho de nove ou dez anos comer rapidamente, e sentia em seu olhar a gratidão, notou que a felicidade está em agregar ao outro e consequentemente fazê-lo feliz, independente de quem seja, a humanidade é sentida pela entrega.

Despediram-se. Pegou o ônibus e voltou para casa, desta vez a sua. Tirou os sapatos, desfez o coque, jogou-se no sofá, olhou para o celular e viu que sua mensagem da manhã havia tido respostas desesperadas. Não as respondeu, términos são dolorosos mesmoLidemos com isso. Pensou no seu dia e o quanto havia sido decisivo, mudou todo o rumo de sua vida em cerca de dez horas. Quando finalmente reclinou a cabeça no travesseiro, colocou os fones e ouviu sua música preferida Felicidade – Marcelo Jeneci – notou que era aquilo mesmo. Felicidade é só questão de ser, e que não há motivos para manter-se estagnada em fases que já mereciam ter tido seu devido fim. Fechou os olhos, planejou cortar os cabelos no dia seguinte e quem sabe fazer o tão sonhado intercambio? E naquele instante, ela se sentiu em casa, em sua própria alma: a verdadeira morada.

Comments Closed

Comentários estão fechados.