Textos e resenhas literárias

Descubra sua liberdade, menina

Descubra sua liberdade, menina

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“Sinta-se livre”. Raquel leu na embalagem do absorvente. Era 11h de uma manhã quente no Rio de janeiro (essa afirmação soa como uma redundância né? Ok!). Uma dor de cabeça terrível não deixava Quel terminar seu seminário da faculdade. Ela estava no quinto período de Publicidade e Propaganda, mas sem ter aquela certeza se era isso que queria fazer de sua vida mesmo, sabe?

Bem, Quel resolveu apelar para algum tipo de medicamento, o que nem era de costume, tanto é que quase nunca ia na farmácia que ficava embaixo do seu prédio. Sempre tomava chá ou qualquer receita caseira, mas como precisava entregar o trabalho com urgência, desceu como estava mesmo: uma blusa de pijama do Tom e Jerry com furinhos nos braços e um short jeans surrado que tinha há séculos.

Ela não era do tipo que se apegava em roupas, mas por algum motivo não conseguia se desfazer daquela peça. Sentia-se confortável, sentia-se ela mesma e pronto. O trajeto do seu apê até a farmácia era mínimo. Mas entre corredor, elevador e portaria, notou vários olhares indiscretos e julgadores. “Normal”, ela pensou. E continuou andando com as havaianas número 44, que Caio, seu namorado tinha esquecido por lá em algum dia aleatório.

Uma pilha de absorventes estava logo na entrada da farmácia como oferta da semana. Os pacotes se equilibravam em formato de “L” e ao lado uma placa de uma mulher sorridente (que de longe parecia uma mulher de carne e osso mesmo e assustava quase todo mundo que passava em frente ao estabelecimento) segurando uma plaquinha com os seguintes dizeres: “Sinta-se livre”.

Raquel achou no mínimo irônico. Primeiro porque liberdade era justamente o oposto que ela costumava sentir “naqueles dias”. Afinal, eram sempre várias preocupações extras que chegavam junto com a menstruação: tipo de roupa que era melhor vestir e quais atividades físicas era melhor evitar, por exemplo. Era um saco. Ah, ela também não ficava lá muito sorridente como a tal mulher da foto.

E em segundo lugar: “como assim a liberdade pode ser vendida como um produto?” Como futura publicitária ela deveria pensar justamente o contrário, não é mesmo? Mas isso não impediu que as indagações continuassem a pairar em sua mente: “A liberdade é apenas uma sensação? A liberdade é passageira?”. Raquel pensava diferente. Por muitas vezes ela já tinha se sentido presa (sua claustrofobia que o diga!), mas nem por isso deixou de ser livre.

Enquanto todas essas interrogações se formavam em sua cabecinha inquieta e curiosa, sem querer teve uma ideia para o seu trabalho que precisava entregar. Já que ela tinha que criar uma marca realista, para combater as propagandas enganosas, teve um insight: criar uma marca de coletor com o slogan “Menina, não se sinta livre. Seja!”. Para que as mulheres entendessem que a sua liberdade tinha que ser integral, em todos os dias do mês (eu disse t-o-d-o-s). E que sem tanta preocupação os dias poderiam ser mais leves e descomplicados – os dela, inclusive.

Quel não sabia ainda se seria uma publicitária, mas sabia que pra vender qualquer ideia, precisava antes acreditar nela. E para ela, a liberdade é estado permanente. É o que somos independente da circunstância atual. E que mesmo as pessoas livres podem ter momentos de insegurança. Pessoas livres não deixam de ser pessoas. Mulheres livres não deixam de ser mulheres.

Depois de alguns minutos encarando a pilha de absorventes e falando sozinha…, o farmacêutico a interrompeu:
– Bom dia! Posso ajudar?
– Ah, já ajudou bastante. Obrigada!

E foi embora com um enorme sorriso no rosto (bem maior que o sorriso daquele cartaz – diga-se de passagem). A dor de cabeça? Quel se esqueceu completamente dela. Talvez as ideias borbulhantes tivessem tomado o lugar da enxaqueca.

4 Comentários
  1. Quel Póvoas Diz

    Amo esse texto e amo a autora dele. 💕

    1. Suélen Diz

      Eu amo você. Obrigada por emprestar seu nome a minha personagem ,💙

  2. Thaisa Emerick Diz

    Amei!

    1. Suelen Diz

      Obrigada, irmâ. Te amooo

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